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Pra Chiquinho não dizer que nunca postei nada no Olaria.
Fiz esse Kin cheio de determinação no olhar e vontade de mudar o mundo, destruir, soltando ar pelas narinas e tremendo as pálpebras, nas próprias palavras dele: "dizimar com o ego, eminente das pessoas, teocêntricas devido a esse capitalismo ridículo, opressor dos mais fracos, e lobotomizados, devemos... não, não... proponho... uma revolução mental que começará, não, não!... que partirá... porra, athos! não, não! tira! que partirá... do olfato de seres mais evolutivos... os patos. (silêncio)... calma, porra! ainda vou falar... temos que prestar mais atenção nos patos... são eles... não! ELES!... (cara de cu por 5 segundos)... estão... anos-luz... na nossa frente, QUACK! Pô...mmm... ééé... é bom frisar que ao contrário... (dá piti por um erro de digitação meu)... ao contrário do que mostra no desenho, vírgula, nessa obra de arte presente nnnn-nesss... teee... neste. Computador. (suspira e toma fôlego) Não sou emo."
A última frase, deste último exemplar dos Sasquatches, foi importante.



Leander.
"Nunca saia da sua casa sem uma meia confortável e um canivete afiado". Foi assim que o conheci. Estava fazendo um documentário sobre os portos da África, com fotografias para uma famosa revista, quando sentei-me em uma mureta, para arrumar a meia que machucava as minhas bolhas". No calor, as meias quentes de lã protegem mais que as finas, mesmo que sejam de seda". Sorri. Ele gritou: "Não existe meia de seda, bakáá!". Assustei. Seguiram-se segundos, ou horas de um silêncio, do qual sentia que poderia ter que pagar com a minha vida por um infeliz comentário. "Vá, seu virgem, digue ao Bispo o pecado do Padre!".
Hesitei, mas tirei de dentro de uma sacola de papel uma garrafa de Fogo Paulista. Fervia. Ele se sentou. Olhou francamente pra mim, e tomou-a de minhas mãos. Cheirou o plástico, apertou e acariciou a garrafa flexível e olhou a fotografia do galo estampado em seu rótulo. Tomou um gole de meio litro. Guardou o resto para tomar com um escravo Zulu que tinha na sua casa. Mas explicou: "Eu trato meus escravos com bebida. Esse é o pagamento deles, nunca nenhum quis fugir, aliás, tem até fila de alistamento lá na minha propriedade. Eles fazem a janta, um caldo preto de feijão com carne de porco, e ficam dançando umas danças estranhas com chutes e saltos, bem diferente do que vemos na Europa, pequeno virgem. Eles dizem que assim vão conseguir muita coisa, uma revolução. Eu digo pra eles: Fodam tudo". E apesar de eu não ter nenhuma palavra, ele disse "Você é um cara legal. Deveria ser um terno de bife da segunda". E riu.
Essa fotografia foi tirada dias depois quando fui junto com ele conhecer a maior tormenta que a Mãe Natureza já propiciou ao homem. A ira de Deus voltava-se justamente contra o seu maior pecador, e eu, junto de tudo isso. Enquanto o seu barco cortava as ondas ele piscava e sorria; Dois animais quando reconhecem-se mutuamente tratam com respeito a proximidade da morte. Uma onda maior que a Bandeira do Senegal rompeu ao meio a navegação. "Vou morrer", gritei ou pensei. Leander, agora a besta, virou toda a garrafa de fogo paulista, que ainda trazia consigo. Lacrou a tampa, e atirou a garrafa em mim. "Fechada assim, ela serve de bóia. Nade o mais longe que puder". Colocou o canivete entre os dentes e mergulhou na tormenta. Como já tinha dito, alguém deveria morrer.
Voltei a encontrar o Leander quando fiz um freelance em São Paulo. Ele havia sido resgatado por surfistas que lá trabalhavam totalmente machucado por mordidas humanas. "Me dê comida e água... não aguento mais me mastigar". Quando o revi, não me reconhecia mais. Esqueceu de toda a sua história, de sua passagem. Ou fingia. Havia refeito toda a sua família na outra cidade. Deveria estar sedento por conquistar outra vida mais pacata. Uma vida só é pouco para um colosso desses. Quando despedi-me dele, disse "Adeus, virgem". Suavemente senti uma ponta afiada nas minhas costas e o sussuro: "Bakáá".
E por fim, como disse, jamais ouvirão falar da maior tempestade de todos os tempos. Quando dois animais duelam, um vence, e para o outro, só cabe o esquecimento.

